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Fé, o único caminho

14 de agosto de 2010

 

           Pertencer a uma comunidade cristã pode dar nos nervos. Crer, ao que parece, significa abrir-se para um mundo novo onde incontáveis vozes têm o direito de nos dizer o que fazer, como agir, em quem votar, como adorar, o que comprar ou deixar de comprar e muito mais. Entender a Bíblia e conhecer a Deus é só o início, somos levados a acreditar com freqüência. Depois disso, vêm as doutrinas todas sobre qual deve ser a postura do “cristão”.

        Esse tipo de pressão não tem nada de novo. Desde o tempo da igreja primitiva, Deus precisa lembrar os crentes que só uma coisa importa para a salvação: a fé em Cristo. No tempo do apóstolo Paulo, os judeus cristãos, acostumados a seguir a letra da lei, pressionavam o povo gentio da Galácia para observar partes específicas da lei do Antigo Testamento a fim de manter sua salvação. Os judeus conheciam as Escrituras e pareciam estar vários degraus acima na escala religiosa, de forma que os gálatas acataram-lhes o ensinamento.

        Os judeus não conseguiam entender que, com sua vinda, Jesus mudou todas as exigências, substituindo a lei e fazendo da crença em si mesmo o único e definitivo caminho para alguém ser salvo. Enfático quanto a essa questão na carta aos gálatas, Paulo advertiu de que estavam se permitindo serem “enfeitiçados” por um ensino errado. Com isso, tomavam sobre si um fardo desnecessário e conduziam outros ao erro. Alguém que crê em Jesus, Paulo declarou, está salvo do pecado. Ponto final. Não existe outro fator nessa equação.

        A carta de Paulo não poderia ser mais clara. Mesmo assim, cada geração de crentes sucessiva perdeu de vista suas palavras e lutou com um contingente próprio de cristãos a exigir atitudes ou comportamento específicos, alheios à fé, para a salvação definitiva. Martinho Lutero, pai da Reforma, redescobriu a mensagem inflamante de Gálatas e ajudou a dirigir muitos a uma teologia mais plena de graça. Dirigiu-se a uma igreja que impunha rotinas religiosas e penitência para alcançar a salvação. O ensino de Lutero fez de Gálatas a “pedra de esquina da Reforma Protestante”. Ele se sentia tão ligado a esse livro que, certa ocasião, chegou a chamá-lo de sua “esposa”.

        Apesar da insistência de Paulo, Lutero e outros que têm lutado para manter os crentes em alerta, o fardo do legalismo (seguir regras prescritas por pessoas, não por Deus) resiste ainda hoje, entre os crentes impondo uma teologia errada uns sobre os outros. J. B. Phillips, pastor e estudioso inglês da Igreja Anglicana, escreveu sobre vários falsos deuses que os cristãos costumam misturar com o verdadeiro Deus. Um deles, o deus do “cem por cento”, espera a perfeição. Esse deus “tem levado um número significativo de pessoas sensíveis e conscienciosas àquilo que é popularmente chamado de ‘ataque de nervos’”. E roubado a alegria e espontaneidade da vida cristã de outros tantos alheios ao fato de que a vida de “perfeita liberdade transformou-se em uma ansiosa escravidão”.

        Phillips continua: “Alguns entusiastas cristãos modernos, do tipo jovial, tendem a encarar o cristianismo como performance. Mas ele continua sendo, como sempre foi desde o início, um modo de vida e não uma performance encenada em benefício do mundo a nosso redor… O cristão moderno agressivo de certos círculos gostaria de impor os cem por cento de perfeição como conjunto de regras a ser obedecido de imediato custe o que custar, em vez de um ideal brilhante a ser perseguido com fidelidade”.

        O Senhor nos orienta como devemos viver pela Bíblia. Mas nem por isso ele nos apresenta uma série de padrões como pré-requisitos para a salvação. Jesus e o restante das Escrituras nos ensinam o verdadeiro ideal do Senhor. Um ideal que, se entendido segundo o propósito de Deus, não nos ameaça, antes “estimula, encoraja e produz similaridade consigo mesmo”, escreve Phillips.

        Se ouvirmos vozes tentando nos orientar como viver enquanto crentes, vale lembrar que nenhuma delas deveria ser mais forte que a da Palavra de Deus: “É evidente que diante de Deus ninguém é justificado pela Lei, pois ‘o justo viverá pela fé’” (Gl 3.11).

Brenda Quinn

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